UBER: o Lado B

Inegável a mudança que o UBER realizou no mercado de transporte de passageiros. Em relação ao cenário brasileiro, o aplicativo aportou em águas tupiniquins em meio a pior recessão econômica dos últimos 100 anos. 14 milhões de desempregados, uma economia em frangalhos, insegurança política e judicial culminaram em uma tempestade perfeita para o gigante americano absorver como motoristas milhares de pessoas que precisam pagar as contas no final do mês.

Desde o início de seu funcionamento, o Termos Reais já utilizou o UBER em capitais de vários estados: SP, RJ, MG, GO, PR e RS. Um detalhe não passou despercebido: a concorrência entre os próprios motoristas. Pegue o celular e faça o teste. O cenário a ser encontrado não será muito diferente do abaixo:

Sem título

Os preços das corridas do UBER são dinâmicas, ou seja, são fortemente influenciadas pela Oferta x Demanda no momento do pedido do consumidor. O aplicativo vem cadastrando novos motoristas a cada dia, o que aumenta a Oferta e é ótimo para o público consumidor.

Apesar do consumidor sair satisfeito com um serviço de transporte barato e eficiente, nem todos os lados saem ganhando. É necessário esclarecer alguns pontos sobre os motoristas.

Após conversar com vários motoristas, o Termos Reais chegou a pontos pacíficos, sem qualquer discordância entre aqueles que não hesitaram em contar sobre sua rotina como motorista UBER:

a) o aplicativo já não dá tanto dinheiro como 12 meses atrás;
b) A taxa do Uber (25% do preço da corrida), os gastos fixos (seguro, manutenção, combustível) e os gastos não recorrentes (furtos, assaltos, acidentes, multas, fiscalizações sancionatórias) alcançam com facilidade mais de 70% a 85% do faturamento;
c) são necessárias jornadas acima de 10 horas diárias para auferir um lucro razoável.

O Termos Reais levou em consideração os pontos apresentados pessoalmente pelos motoristas. Mas não é o suficiente. Foi atrás de outras fontes de informação, visando chegar a uma conclusão lastreada em diversas fontes.

  1. Com mais oferta do que demanda, as jornadas crescem. No último dia 8, o motorista do Uber Carlos (nome fictício, a pedido dele) começou a jornada às 5h, com uma viagem para Guarulhos, e pretendia dirigir até 4h do dia seguinte, no sábado. “Dei umas dormidas no carro”, diz ele, que agora tenta a sorte também no Cabify. Em um segunda deste mês, ele faturou R$ 12 com o Uber.” 
    Efeito Uber reduz preços, mas leva motorista a trabalhar por quase 24 h. Folha de São Paulo. 18/11/2016.
  2. Para Guilherme Cury,  gerente de operações do aplicativo Parpe (locação de veículos) e especialista em Uber(…)vários trabalhadores já perceberam na prática: fatura-se bem menos atualmente do que há um ano, quando existiam menos carros Uber na praça. “Hoje, trabalhando-se duro, dez horas por dia, de segunda a sábado, dá para tirar líquido algo entre R$ 2 mil a R$ 3 mil”, afirma. O esforço é muito grande para um ganho tão pequeno, afirma Cury.
    Vale a pena ser motorista do UBER? Revista IstoÉ Dinheiro. 11/07/2016.
  3. Cleverson Luiz foi um dos primeiros a fazer parte do serviço particular de transporte quando plataforma chegou no Recife em março de 2016(…) se viu apurando R$ 8.000,00 por mês trabalhando 8 horas por dia. Hoje na visão de Cleverson, a história está bem diferente(…) “agora eu tenho que trabalhar 10 ou 12 horas por dia para fazer R$ 600 por semana.Motoristas do Uber reclamam da queda de faturamento. Sistema Jornal do Comércio de Comunicação (SJCC) de Recife. 10/03/2017

 

Opinião do TERMOS REAIS

O Uber não é o salvador dos desempregados e muito menos realiza trabalhos voluntários de transporte de passageiros. Sua estratégia é similar ao início de qualquer empresa de sucesso da área de tecnologia: atrair o maior número possível de clientes, mesmo que isso ocasione prejuízos à própria companhia (em 2016 o Uber faturou US$ 6,5 Bilhões e teve prejuízo de US$ 2,8 bilhões – Reuters 14/04/2017). 

Após a atração inicial (apenas no Brasil são cerca de 9 milhões de usuários), a empresa destrói a concorrência com preços baixos (vide taxistas) e se segmenta como um monopólio. Após atingir o patamar de monopólio, a empresa vai conseguir majorar os preços.

No entanto, não acredito que o modelo de negócios do UBER permaneça sob as premissas de utilização de motoristas humanos. Em Pittsburgh, no estado americano da Pensilvânia, a empresa já utiliza um Volvo XC90 (foto abaixo) que dirige sozinho para levar os passageiros. Robôs não precisam descansar, não reclamam em redes sociais, não fazem piquetes, não protestam e aceitam quaisquer condições de trabalho.

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Os motoristas que entraram no UBER no início do funcionamento do aplicativo conseguiram auferir bons valores. No entanto a fase de ouro se encerrou. A concorrência entre os motoristas é absurda. Para o desempregado e o descontente com a renda atual (perfil de 99% dos motoristas do UBER), é necessário deixar qualquer opinião pré-formatada sobre o aplicativo antes de formar uma opinião realista.

As fontes colhidas presencialmente e através de meios de comunicação convergem para um modelo de negócios que tende a caminhar entre a linha tênue do breakeven* e de pouquíssima margem de lucro. Ao se colocar na balança o custo com saúde (10-14 horas dirigindo, stress, alimentação ruim) e demais custos que vêm a reboque(o custo oportunidade e a sustentabilidade no longo prazo como motorista do app), é difícil encontrar argumentos plausíveis a não ser aqueles voltados para a sobrevivência do motorista em um ambiente de desemprego ou de eventual complemento de renda.

* Breakeven: os custos e as despesas totais são iguais à receita total, ou seja, não teve lucro nem prejuízo.

 

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6 thoughts on “UBER: o Lado B

  1. Pois é TR,

    Também já ouvi relatos de motoristas de Uber que a coisa tá difícil.

    Esses dias peguei um Uber que o motorista era um senhor que relatava ter se aposentado e encontrou no Uber uma ocupação. Disse que gostava do trabalho por conhecer e conversar com muitas pessoas diferentes, pois se fosse pela remuneração ele já teria saído.

    Abraços!

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  2. TR,

    Realmente o Uber foi deixando de ser atrativo pela quantidade de motoristas cadastrados. Na europa e nos EUA pelo menos eles ainda conseguem mais dignidade mas no Brasil é complicado.

    Agora o motorista de Uber tá sentindo um pouco do que o motorista de taxi sentia, a diferença está na qualidade do serviço. Os dois trabalham feito escravos atualmente mas um presta um serviço melhor que o outro.

    Abraço!

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    • BPM

      Os primeiros motoristas chegavam a faturar bruto entre 6-8 mil reais. Obviamente que a notícia se espalhou e uma leva absurda de novos motoristas ingressou no app. Os próprios motoristas do UBER se prejudicaram.

      Quando ao regime de trabalho, também concordo. Trabalhar 14 horas por dia para receber líquido um valor irrisório não tem outra definição: semi-escravidão.

      Abs!

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      • Completando esse excelente post e discordando um pouco do amigo bpm.

        Não, o uber não vale apena nem pro americano nem pro europeu.
        É uma empresa oligopolista que visa apenas o enriquecimento de seus acionistas

        Video de um uber na Espanha

        Video de um uber em Portugal

        Video de travos kalanick o explorador

        Ass: Ex trabalhador do uber

        Like

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